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tinha medo de passar para a quarta série porque a vizinha, um ano mais velha, dizia que era muito difícil. acho que foi essa vizinha que também me disse que a alma quando manchava não tinha mais jeito. para mim, alma aparecia na radiografia de pulmão. medo maior de tornar a alma negra. depois esqueci dessa coisa de alma. o medo de [não] passar de ano permaneceu. comecei a fumar entre as provas da faculdade. quero fumar até hoje, mas deixei num dia onze de setembro. medo do pulmão enegrecer. a vida segue sem cigarros ou radiografias de alma. às vezes o céu fica cinza. às vezes é cinza. dos cigarros, das fotografias que se foram com a casa incendiada na infância, do pulmão misturado com a alma. a moça cinza foi rainha foi por nove dias. jane grey morreu sem cabeça, sem guilford. guilt or not guilt? de seu pulmão e de sua alma nada sei. nem dos meus.
travestidos de moiras, vamos, sem cuidado, trabalhando com fuso e roca. os que se salvam de ter o dedo espetado, seguem a desfazer novelos, desencantados. e vamos tramando o tecido esgarçado. tantos pontos inacabados são deixados para trás. por esses buracos meninas são lançadas das alturas, rapunzéis do avesso. por essas falhas, disfarçados de mosquitos, passam anjos da morte. neste reino não se bordam finais felizes.
erva daninha e mato crescido. espinhos caindo do céu. flores que não serão. sobre o piano, um copo de veneno. olhos de ressaca moral, capitulando. vasos insanitários, água berçário. vírus e hemorragia. dedo furado na roca. o prozac nosso de cada dia nos dai hoje. prosaicos mosquitos. crônicas das mortes anunciadas. dor aguda. apatia crônica. cronologia e obituário. quem bebeu morreu. trópicos e larvas. o culpado nunca sou eu.
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de salto alto por dias a fio,
doença no pé (em mim).
a vida cheia de som e fúria,
filosofia (cabeça ruim).
nenhum samba tem importância,
nesta busca (sem fim).
PROCURAM-SE
MAIS DE MIL PALHAÇOS
NA ÚLTIMA VEZ EM QUE FORAM VISTOS ESTAVAM NO SALÃO
sonhei que tinha plataformas westwood originais e que as pessoas gostavam de mim naturalmente.
por modelitos da vivienne vou virar punk. me ajuda dani?
a vontade de comer o abaporu começou como uma vaga idéia quando fui à buenos aires...
faltou-me a coragem para dar uma dentada no homem que come carne humana lá na argentina.
não há espaço pra antropofagia onde se dança tango.
mas eis que o quadro está vindo emprestado para a terrabrasilis.
sonho sim em entrar na pinacoteca, munida de garfo, faca e guardanapo...
não, melhor levar farinha prá comer com a mão.
retalhar, deglutir, comer, digerir, engolir o braço que parece nariz, distribuir o que sobrar na estação do metrô.
vamos, macunaímas queridos, lá na paulicéia comer o abaporu?
só não vou porque tenho preguiça,
caráter nenhum tenho,
e sim medo da polícia.
carne não como,
nem quadro.
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ontem foi o tempo de império dos sonhos. não foram horas tranqüilas. ainda sob o impacto das imagens e do som. evidentemente não tenho explicação para o filme. nem seria coerente ter. mas tenho uma interpretação, como a que se faz de sonhos. de algum modo foi possível sentir o desejo e a falta das personagens. ou apenas o desejo que me move e a falta que me acompanha.
pensando bem há muito estão aqui as imagens e os sons de david lynch . lágrimas sentidas pelo homem elefante. a trilha de twin peaks antes de dormir e durante o sonho. outras lágrimas pelo velho herói de a estrada real. a intensidade violenta de veludo azul. oz revisitada em coração selvagem. a tentativa em duna. amor e morte em cidade do sonhos. e agora todo o tempo do mundo para elaborar INLAND DRIVE e para assistir o que ainda não vi.
acordar cedo não era o problema. a vida inteira acordou cedo. era tanta coisa para resolver. o problema era mesmo o acordar naqueles dias. dias que já formavam anos. o momento em que recuperava a consciência, após o despertar. breve instante de desconhecimento e paz. depois era o suor gelado lavando o corpo, as mãos tremendo. o medo. podia senti-lo ali, deitado ao seu lado. a respiração ofegante. uma presença física o medo. estava certa de que perderia tudo. quase uma década esperando por esse momento. era certo que um dia viria a derrocada, a falência, o fim. por isso não conseguia se erguer. mais um dia deitada. e por que mesmo tinha comprado móveis brancos para o quarto? estavam ficando tão encardidos. logo não seria mais possível limpá-los.